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O que é um hippie?

21/08/2011

No meu tempo de estrada, não importava onde estivesse expondo minha arte, fosse numa cidade pequena perdida nesse Brasil imenso ou numa capital, sempre chegavam pessoas curiosas, talvez pelo exotismo do “diferente” ou mesmo pela arte.

O sistema, que nos trata como camelôs, chamaria estas pessoas de “clientes”. Para mim nunca foi assim…

Muitas pessoas chegavam para comprar uma pulseira, um brinco, mas eu sentia que o real motivo era outro, a “compra” era quase sempre um pretexto, uma desculpa para criar um canal de troca, de comunicação, onde o produto de maior valor era a informação. Acredito que aquilo que o artesão vende está muito além do seu produto; é também sua história de vida na estrada. Além de que o brinco e a pulseira são representações materiais da própria subjetividade do viajante e da cultura que experiencia.

E conversa vai, conversa vem, sempre surgia aquela pergunta: “você é um hippie?”

Engraçado é que, independente de quem perguntava e de onde eu estivesse, sempre sentia que a pessoa ansiava para que eu respondesse: “Sim, eu sou um hippie”. Isso facilitaria tudo, pois embora existisse toda a curiosidade, sinto que as pessoas tem extrema relutância em problematizar as questões e ir a fundo nas reflexões, sair da sua zona de entendimento e de conforto, lá onde tudo já se encontra claro e organizado. Em geral gostamos de conceitos prontos, fechados em si. Mas o que eu sempre me perguntei é: “Afinal, qual o conceito a sociedade faz do que é um hippie?!”

Pensando nisso, comecei a entender que a sociedade folclorizou o conceito do “hippie”. Quando este conceito aparece na mídia geralmente é reforçado por um romantismo pueril ou pela comodidade do pensamento, geradora de tantas simplificações e equívocos, onde somos descritos como remanescências de um passado, ligados à filosofia do “paz e amor”, do não consumismo e blá,blá,blá… Ou então somos os sujos, drogados, agressivos, mendigos, marginais, indocumentados… Isto quando a mídia se refere a nós. Em geral, somos invisíveis para a mídia, para a maioria da sociedade civil e para o Estado.

Prefiro colocar: nem santos, nem demônios… Embora tenhamos um sentimento de pertencimento a uma família, ou seja, nos reconhecemos enquanto uma expressão cultural singular (traduzindo para um linguajar acadêmico), compartilhando fazeres, saberes, códigos de conduta, estética, valores, visão de mundo, práticas e modos de vida, somos também extremamente heterogêneos, cada um na sua viagem, cada um com uma subjetividade e uma busca. Como em qualquer “grupo”, portamos uma grande diversidade de tipos, variantes dentro de uma expressão cultural que apenas fornece alguns nortes, contornos.

Eu particularmente não me afino com o estereótipo “hippie” e muitos irmãos compartilham comigo deste sentimento. Às vezes não insistimos neste discurso e deixamos que os outros nos chamem assim, mas isso ocorre mais pela limitação do outro, que muitas vezes não quer problematizar. Pelo contrário, quer ouvir uma resposta curta, que feche a equação da ignorância em sua cabeça. “Sim, eu sou um hippie.” E o outro diz: “Ah, eu sabia”.

Acredito que somos um desdobramento, uma complexa resignificação do movimento hippie. Bebemos também deste movimento, mas, no Brasil, uma série de outros elementos foram entrando neste diálogo, ao longo do tempo, desenvolvendo-se um rico e dinâmico processo de mestiçagem, hibridação. Não pensem em conceitos fixos. Neste momento, enquanto escrevo, continuamos a nos misturar, re-inventando e re-escrevendo constantemente esta história.

Mas o sistema nos deteriora, em vez de potencializar estes buscadores, que poderiam se comparar aos bandeirantes do passado. Em vez de tatear espaços físicos em busca de ouro, se lançam  na estrada buscando se impregnar de experiências e buscando novas maneiras de se socializar, de se organizar economicamente, afetivamente. Conceitos estes que diante de uma sociedade à beira do colapso, são de uma riqueza e de uma potencialidade incalculáveis.

Na verdade, acredito que toda expressão cultural deveria ser encarada como uma riqueza, expressão da mais singular particularidade humana, a de se reinventar, se adaptar, de criar modos diferentes de ser e estar no mundo. Portanto, só tem a acrescentar para a sociedade. Neste sentido, a simples tolerância seria um passo muito primário na forma de lidar com a diversidade cultural.

O que é um hippie? Quem poderia responder esta pergunta? Talvez estejamos fazendo a pergunta errada e aí resida o problema da resposta…

E se o movimento hippie das décadas de 60 e 70 fosse apenas uma roupagem efêmera de um movimento que é na verdade atemporal, que sempre existiu, fruto de uma inquietação inerente do ser humano? Não seria o movimento “beatnick” uma outra dessas roupagens, só que no contexto cultural das décadas de 40 e 50?

E os “malucos de estrada”, o que seriam?

Nas conversas dos “malucos” sempre um assunto vem à tona, às vezes em forma de piada, outras vezes de forma tão séria que chega a ser defendida com uma convicção quase religiosa: é a ideia de que Jesus teria sido o primeiro “maluco de estrada”.

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com Jesus em uma idade que compreende justamente as fases mais suscetíveis a “cair na estrada”, estou falando dos 13 aos 30 anos. Jesus era um artesão (carpinteiro), conhecido por se vestir do modo mais simples, por viajar entre as cidades e por ter um espirito extremamente rebelde e anti-hegemônico. Os paralelos são muitos, não vou insistir nisso, pois como mexemos na seara das religiões, pode provocar certas polêmicas desnecessárias dentro desta discussão.

Um dia desses conversava com Jansem, baiano, maluco de estrada, artesão, músico, ator, poeta, malabarista e ele me dizia: “Camarada, Jesus viajava num burro porque ainda não tinham inventado a bicicleta”.

Jansem e Jasse viajam de bicicleta, carregam perna de pau, pandeiros, alicates, livros, artesanatos. Os conheci quando o fiscal de um bar proibia Jansem de recolher moedas de pessoas que estavam sentadas no passeio público, passeio este que era ocupado pelas cadeiras do bar. Jansem tinha acabado de fazer um número que envolvia malabarismo, capoeira, perna de pau, música e poesia. As pessoas que assistiam nas cadeiras estavam de braços levantados, com moedinhas nas mãos querendo retribuir um pouco da arte que receberam. Jansem passava com o pandeiro aceitando doações (contribuições) e o fiscal do bar queria impedi-lo, sendo que as pessoas estavam na calçada pública. Observem que este tipo de ação que Jansem promove não pode ser sobre-taxada, isso é lei, doações não podem ser sobre-taxadas pelo governo.

Tentar entender o “maluco de estrada” como um prestador de serviços ou um comerciante é um erro tão absurdo quanto achar que nossos governantes trabalham para nós e não para si mesmos.

Mas voltando à questão da atemporalidade do movimento nômade, desta atividade que sempre existiu na história da humanidade (desde os primórdios), assumindo aspectos diferenciados em cada época, queria lhes dizer que eu não tenho conhecimento para aprofundar estas reflexões; deixo em aberto para os que se interessem por esta investigação. A mim resta só a intuição.

Se Jesus foi ou não um “maluco de estrada”, não posso dizer, mas afirmo com certeza que, caso ele fosse, de modo algum teria sido o primeiro.

 

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10 Comentários
  1. Há um mês mais ou menos comecei a ler uns livros para criar uma redação sobre o tema “O papel da mídia na construção da cidadania cultural”. Não curto a palavra “resumir”, mas acho que todo esse trabalho em torno dos artesãos de BH serve como um (grande) exemplo para o assunto. É revoltante o quanto cada vez mais perdemos nossa identidade e extinguimos cada vez mais o verdadeiro significado de cultura. Tanto interesse particular e rios de dinheiro da industria cultural cortam muitas pernas. Mas sempre serei fiel ao pensamento de que mudanças, mesmo que pequenas, ao nosso redor, há de fazer a diferença. Com ou sem pretenções, até chegarmos àquela frase de que mesmo mirando a lua, se errarmos, podemos acertar uma estrela. Parabéns pelo trabalho.

    • Rafael permalink

      Olá Silmara, com certeza estes videos demonstram o sintoma de uma sociedade doente, que não abre espaço pra diversidade cultural e que aniquila culturas não hegemônicas. Agente nunca sabe aonde estes videos vão parar e qual a força de mudança que eles carregam. Depende de cada um de nós.

      Abraços!

  2. lesley permalink

    olá rafael,
    Meu nome é Lesley e sou estudante de geografia aqui de Sp. assisti seu video de criminalização do artista onde mostra a aplicação do projeto de revitalização do centro de BH e nós aqui de Sp iremos fazer um trabalho de campo dia 8 de setembro em Bh para estudar as implicações desse plano. gostariamos de saber se você poderia contribuir com nosso trabalho, nos dando mais informações já que você é daí e já sabe do podre desse plano.
    Abraço.

    lesley.silva@hotmail.com

    • Rafael permalink

      Olá Lesley, de fato vejo os espaços públicos desaparecendo e se transformando em corredores entre espaços privados. Fora o assassinato da diversidade cultural, não só dos artesãos, mas também dos músicos, malabaristas, estatuas vivas, comidas tipicas…No que eu puder lhe ajudar farei, mas vou lhe indicar o contato de uma pessoa que acabou de concluir um estudo significativo sobre este tema em Belo Horizonte, mando por e.mail.

      Abraços.

  3. gaby permalink

    Jansem e jaci , massa eles irmaos

  4. tiane barreto permalink

    OLÁ RAFAEL!
    fique muito orgulhosa de ler seus textos,são realmente uma resposta a altura das descriminação que vinhemos a passar pela falta de informação sobre oq somos,uma familia,tambm distruida pelo sistema capitalista e dgradante,falta de estrutura levaram pensadores aos vicios,para afagar as ideias que não paravam de trafegar pela cabeça,somos forçados a viver como marginais correndo dos fiscais e ate da policia, a outra geração lutava pelo direito de se expressar, hoje temos o direito de se expressar,mas quem tem a palavra são pessoas que simplismente ignoram o valor e o perigo que pode ser uma informação.
    o fato disso tudo não só contra nós a malucada,mas como a toda a população que depende dessa midia devoradora de poetas e criadores de patetas,para entrar na globalização,vamos estar sempre atrazados e sabendo pela metade…
    foi mal pelos erros no portugues,mas é que…

    • Rafael permalink

      Olá Tiane, valeu por dedicar seu tempo a comentar este trabalho. De fato ando meio cansado e desestimulado pelo desinteresse dos proprios malucos, depois de tudo que agente conseguiu, chego a conclusão de que o maior inimigo do maluco, é o próprio maluco. Poderia aprofundar essa discussão, talvez em outro momento.

      Abraços.

      • alô Rafael, parabéns pelo seu trabalho!

        entendo o desestímulo em que você se deparou.

        creio que ele acontece quando tentamos buscar alternativas dentro do sistema, enquanto o remédio está fora dele.

        audiências públicas, ministério público e tudo mais são órgãos, membros, partes de um organismo maior, que, mesmo abrigando muita iniciativa louvável, tem inércia própria e é apoiado, muitas vezes involuntaria e inconscientemente, por toda uma legião de alienados, sejam pagadores de carnês ou torcedores do futebol profissional.

        a alternativa real só pode acontecer se houver abdicação total da ilusão virtual que nos ronda, insustentável.

        tem muita gente buscando esta alternativa e o melhor de tudo é encontrar no ar a vibração desta busca.

        no seu blog, por exemplo.

        e é muito bom teclar num blog do WordPress, ao invés dos googles da vida, mesmo sabendo que isso aqui é parte daquele todo que citei no início.

        aqui, porém, na internet, o canal é aberto, estando nós apenas sujeitos à observação do big brother, mas isso é o de menos, frente à possibilidade de comunicação, informação e irmandade.

        fora isso, é se acostumar com os desestímulos, mesmo.

        de qualquer maneira, seja onde for, eles são irmãos gêmeos da expectativa.

        paz e voa sorte a você e a todos que se irmanam na busca de uma condição que seja, ao menos, mais orgânica.

  5. Ir. Cidlene permalink

    Olá,
    Rafael,
    Lendo as notícias de hoje, “TROPA DE CHOQUE NA PRAÇA SETE EM Belo Horizonte”, linquei seu blog. Fiquei feliz de encontrar, respondeu-me a grande vontade de aproximar-me para conhecer essa forma de ser e viver. Parabéns pela inteligentíssima resposta à pergunta tão intrigante. Sou cientista da religião e também freira, e sempre contemplei algo do comportamento de Jesus na vida dos nômades de hoje, como a irrevencia e vida em comunidade, mesmo independente de regras e normas. Nossa sociedade resiste a comportamento como estes porque é técnica, fria, injusta, vazia e hipócrita.
    Obrigada, foi um praze lincar nesse portam de conhecimento.

  6. viví as experiencias na feira de cabo frio, Pça xv, Ipanema, quando próprios arte~´aos perderam o sentido de qualidade com quantidade, era um comendo o outro, correndo prá rua da alfandega e enchendo a banca de trampo de trabalhos escravo, foi nossa própria classe adoecidos pela ganncia que permitiu que hoje sejamos tratados por camelôs, mas nada disso impede de firmamo, somos família, temos netos… eu sou discriminada pela minha própria mãe…

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