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Uma Feira Hippie, sem Hippies x Hippies sem feira

09/05/2012

Fragmento retirado do inventário: ”Malucos de Estrada – A reconfiguração do movimento hippie no Brasil”

Texto de Rafael Lage

A expressão cultural protagonizada pelos “artesãos nômades” (conhecidos no senso comum como “hippies”, chamados entre si de “malucos” ou “malucos de estrada” e aqui chamados também de “artesãos nômades” ou simplesmente artesãos) tem deixado marcas profundas na cidade de Belo Horizonte, onde pode ser notada desde a década de 60, quando estes e outros artistas expunham no chão seus trabalhos na Praça da Liberdade. Este ambiente informal, fortemente comunitário, onde prevalecia a possibilidade de expressar-se artística e culturalmente, tornou-se um ponto de visitação e entretenimento, atraindo muitas pessoas.

Com o passar do tempo, a prefeitura da cidade passou a regulamentar as atividades no espaço, conhecido como “Feira Hippie”, que foi posteriormente transferida para a Avenida Afonso Pena.

Seu primeiro regulamento foi feito em 1971 – ainda na Praça da Liberdade – e carregou alguns traços de sua identidade original, como o modo de exposição dos artesanatos em cima de um “pano no chão”, como podemos ver no artigo 17: “Tratando-se de uma FEIRA de arte, fica proibida a montagem de barracas, admitindo-se, entretanto, a instalação de guarda-sol praiano, colorido ou não.” 

Obs: Posteriormente esse artigo foi substituído e hoje é obrigatória a montagem de uma barraca padronizada.

Fonte: Estado de Minas

Feira Hippie na praça da Liberdade em 1969 – Pano no chão e ambiente de informalidade

Fonte: Autoria desconhecida

Feira Hippie na Av. Afonso Pena nos dias atuais – Mega empreendimento comercial

Foto: Rafael Lage

Praça Sete nos dias de hoje – Pano no chão e ambiente de informalidade

De ambiente cultural, artístico e informal a feira vai progressivamente tornando-se  uma empreitada predominantemente comercial, o que foi gerando crescente desidentificação e afastamento dos “artesãos hippies”. Eles começam a se retirar da feira no final da década de 80, migrando paulatinamente para a Praça Sete, onde até hoje permanece sendo o espaço de encontro dessa cultura, onde interagem, expressam-se e expõem sua arte.

Esta migração deixa claro que a cosmovisão e afinidades desse grupo cultural impede que se enquadre no formato de feira concebido hegemonicamente, com bancas e regulamentações específicas (caso da atual feira na Avenida Afonso Pena), demandando, para se expressar enquanto cultura e exercer seu ofício, de um espaço norteado por parâmetros coerentes com esta cultura, como o que pode ser visto na configuração da remota feira hippie na Praça da Liberdade ou na Praça Sete, atualmente, os quais remetem mais a um ambiente de intervenção artística e cultural, do que a uma feira  propriamente dita.

Um dos legados desse grupo cultural, forjado em suas origens com ampla participação destes atores sociais, representa hoje a maior feira aberta da América Latina, apresentando-se num formato radicalmente diferente dos saudosos domingos culturais na Praça da Liberdade, nos anos de sua gestação, não só de um ponto de vista logístico, mas fundamentalmente ideológico. Converteu-se num mega evento comercial que movimenta a economia da cidade nos segmentos hoteleiro, de transporte, alimentação e comércio varejista e atacadista.

A feira inclusive teve seu nome legalmente alterado, e embora sua “alma” tenha se deslocado para a Praça Sete, a maioria da população continua a chamá-la de “Feira Hippie”.

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