Skip to content

“Malucos de Estrada” na Rio Fashion Week?

29/04/2013

_MG_0120

Carxs, no ultimo mês recebemos uma proposta que nos fez refletir bastante sobre os caminhos que o filme “Malucxs de Estrada” e toda sua luta política podem tomar. Um estilista de uma conhecida marca de roupas internacional nos procurou pois estava interessado em montar o desfile de sua coleção outono-inverno para o Rio Fashion Week baseado na estética dos hippies / malucos de estrada.

Ele nos procurou a fim de compreender melhor este universo, desenvolver uma parceria com o coletivo Beleza da Margem e mostrar no desfile as imagens da repressão que todos malucos tem sofrido pelo país e introduzir o conceito da reconfiguração que o movimento hippie teve no Brasil após 40 anos de mestiçagem cultural. Seria uma grande visibilidade para o filme e uma alavanca financeira num momento crucial para a continuidade dessa empreitada. No entanto, após colocar na balança os prós e os contras, escrevemos uma resposta ao estilista que é ao mesmo tempo uma resposta para vocês que estão acompanhando, participando e contribuindo com a nossa história. Segue:

Olá,

Como lhe disse, surgiram vários questionamentos acerca da parceria dos artesãos neste projeto.

Uma das problemáticas vislumbradas refere-se à possibilidade da ocorrência de uma apropriação do artesanato produzido pelos artesãos por setores da indústria. Isto porque, uma vez que este bem cultural seja visualizado como uma tendência da moda, pode passar a ser produzido por outros agentes visando o mercado da moda e o lucro, em escala industrial/comercial, desvinculando o bem cultural do seu produtor cultural, o artesão, e produzindo-o de uma forma que dificulta sobremaneira a “competição” deste. Já sabemos que um produto artesanal, produzido por um indivíduo singular, tem dificuldades em “competir” – em seu custo final, acessibilidade, divulgação – com um bem industrializado, produzido em série e exposto em lojas. Vale lembrar que a produção do artesanato constitui-se numa das principais formas de sustentabilidade do maluco de estrada.

Outra questão que nos inquietou consiste na possibilidade de que o desfile estimule uma visualização/divulgação do caráter estético da cultura do maluco de estrada, desvinculado de outros conteúdos essenciais. Sabemos de seu interesse e disponibilidade em abordar e divulgar no desfile a luta política e o contexto de repressão que o artesão sofre, mas tememos que o apelo à estética peculiar destes venha sobrepujar todo o contexto cultural que dá vida e sentido a esta estética. Neste caso, estaríamos na contra-mão de nosso próprio trabalho, que busca visualizar esta cultura de uma forma mais ampla, considerando a gama de facetas que constituem a expressão cultural protagonizada pelo maluco de estrada: sua cosmovisão específica, seus saberes e fazeres, seus valores singulares, suas formas de conduta, etc. São todos estes aspectos que fazem estas pessoas serem quem são, e apenas uma apreensão deste todo garante a coerência desta cultura.

Mais uma questão: o Coletivo Beleza da Margem é composto por pessoas que trabalham e militam na área do audiovisual e por alguns artesãos. Possuímos também grande legitimidade frente a uma parcela não desprezível de malucos de estrada. Mas não podemos considerarmo-nos representantes destes artesãos, porque estes são milhares de pessoas espalhadas por todo o Brasil. Mesmo o grupo de artesãos, não integrantes do Coletivo, que participou das discussões acerca do projeto do desfile não pode ser considerado representativo da cultura dos “malucos de estrada” no Brasil. Por se tratar de uma questão polêmica a parceria dos artesãos e/ou do Coletivo neste desfile, não podemos assumir a responsabilidade de representar e expressar uma cultura tão complexa, composta inclusive por artesãos que possuem uma postura rigorosa ante ao establishment e que considerariam que ocorreu uma cooptação.

Sabemos que a indústria, o capitalismo, tem a perspicácia de transformar tudo em produto. Inclusive podemos visualizar hoje, no mundo, uma movimentada indústria em torno do exotismo, do diferente. Mas será que há uma contrapartida válida desta movimentada indústria do exótico para aqueles aos quais ela se refere? Será que a ampla divulgação e possível aceitação da estética do artesão viria acompanhada de reflexões efetivas acerca de seu complexo universo cultural e da situação destes atores?

Desta maneira, não podemos nos comprometer a qualquer tipo de participação neste desfile, sob o risco de perder a legitimidade construída por anos junto aos nossos irmãos de estrada.

Independentemente do nosso posicionamento, sabemos que é possível que você dê prosseguimento à sua ideia, até inclusive encontrando artesãos que queiram participar deste projeto. Estamos cientes que, devido à variedade de indivíduos que compõem a família dos malucos, é possível que nem todos alcancem toda a problemática contida na questão.

Anúncios

From → Sem categoria

17 Comentários
  1. Jefferson de Góes Gonçalves Júnior permalink

    Gostei, boa respostas, pensaram com coerência sobre diversos aspectos!
    Isso ai, dinheiro supri o momento: E amanhã?
    Valeu!

  2. Flávio permalink

    Parabéns pela decisão!

  3. Decisão sábia.

  4. Resposta perfeita e sábia coerente .

  5. gil lacerda permalink

    parabéns. foi mui inteligente a resposta não se comprometer aos fatos!

  6. wellington dos santos permalink

    a luta ainda continua,sempre contra a reprenção ,das prefeituras pelo brasil a fora,com uma tal lei organica,cade o estatuto do artessão,a lem federal é sucubda por uma lei munipal,salvador 2014 licença pra trabalhar na praia area maritima sendo cobrado uma licensa ,aonde que nós maluco de estrada se enquadra nesse pradrão de corupto.

  7. Samira permalink

    Conversar e discutir sobre a proposta é o que se espera de uma democracia, mas com certeza a resposta desde o princípio era “NÃO, obrigado”.

  8. Juliana Moreira permalink

    Sensacional!

  9. por dez anos percori as estradas e praias deste brasil como um maluco de estrada durante os anos oitenta e parte dos noventa e esta viagem me levou até a europa..tendo eu alguma formação autodidata militava em associações tentando fazer valer nossos direitos junto a prefeituras que dificultavam nosso ganha pão..e até da policia sempre repressiva ..lembro aqui de tantos irmãos de luta ..que como eu foram triturados pelo sistema..carlão da praça quinze…deodato da praça da república..shanpoo da canoa quebrada.. kleber o rasta do sertão..meu amigo do vale verde, aldeia hippie próximo a porto seguro..entre tantos outros..cuja saudade trago no peito…lendo este texto percebi o respeito destes pesquisadores pelo que temos de mais importante ..nossa dignidade de antes de tudo sermos seres humanos,com sentimentos e aspirações..parabéns e se presciso estou pronto a ajudar..talves não financeiramente pois continuo como antes desprovido de riqueza material..mas talvez minhas lembranças possam contribuir neste valioso projeto..antes que o mundo moderno se esqueça de nós como pessoas e nos relegue ao esquecimento…mello artesão hippie ..hoje jardineiro para sustentar sua familia …

  10. guilhermeresendeportfolio permalink

    Meus parabéns pela visão geral de toda a problemática e por defender a cultura e a forma de subsistencia dos malucos.

  11. Karine permalink

    Oi Gente! Acabo de chegar e acho que a pergunta e a resposta estão corretas. A pergunta tá correta porque para a grande mídia levar para o Rio Fashion Week, e para o próprio evento, só teria vantagens. Cala a boca do movimento muito rápido. Isso inclusive explica a rapidez da procura! Parte do pressuposto que o contrário da invisibilidade é a luta por visibilidade . Nos termos deles! Ou seja, é acreditar que o problema se resolve no poder de quem tem poder para dar visibilidade. Sabe, buscar legitimidade em eventos assim, de grande repercussão, daria conta de uma divulgação tão fugaz quanto a própria moda que sustenta essas passarelas. Na verdade, esse é o chamado “paradoxo prêmio nobel” alguns militantes da causa da paz fogem de ganhar a premiação porque depois que as “luzes se apagam” a luta é esquecida e ninguém transforma o problema que criou a luta!. É um dos efeitos da sociedade midiática que vivemos, onde as luzes da grande mídia parece selar o evento. Vira ponto final, entende?. Depois que aparece as pessoas já não se interessam mais, a vida do artesão volta à mesma coisa e alguém pergunta: Mas o que vocês querem mais? É que para muita gente os tais 15 minutos sinalizam um ponto de chegada, nada mais acontece depois desse ponto. A resposta está correta por uma infinidade de motivos. Primeiro porque artista de Br não pretende ser aceito, ganhar notoriedade, tapinha nas costas ou coisas do gênero. Quer mesmo encontrar sentido na sua arte e viver o mundo repleto de paisagens, ser mutante. Imagine gente que vive entre o pantanal, o cerrado e as ruas brasileiras fixado em um lugar para produzir metros e metros de um fio de cobre porque um bonitinho quer criar coisas com a temática! Ah…porque não vai ser modo de vida, mas uma temática! E ninguém se esqueça que os artistas vão ser só mão de obra! Ou melhor, maquinas de fabrico artesanal. So cool! Não vão ser criadores , mas sim, criaturas! Ao contrário, a luta por respeito à arte de rua tem que reconhecer e se modelar à causa da arte de rua. Entender, respeitar o artista e usar a força dos brincos, colares e bolsas como uma luta silenciosa para financiar os artistas e sua cultura. Sei que o nome financiar fica meio feio nesse contexto, mas adquirir as peças faz realmente toda a diferença! O outro passo é exigir respeito ao artista. Realmente é necessário ter gente que não está produzindo artesanato que coloque o corpo e a cara no lugar do artista. Isso cria um problemão jurídico porque denuncia o crime de prisão sem crime…que na verdade é o que acontece. Bem, juridicamente ninguém pode ser preso sem acusação e talvez isso sirva de denuncia. Um beijão a todos! Karine

    • Rafael permalink

      Olá Karine, fantástica sua reflexão, grato por compartir conosco sua lucidez e a percepção aguçada. É tudo isso que vc falou, sem tirar nem por.

      Abraços.

      Rafael Lage

  12. vitor permalink

    isto ai ta valendo mesmo parabens por pençar em todos os irmaozinhos

Trackbacks & Pingbacks

  1. Malucos das Estrada não foram ao Fashion Rio | Moda Ética
  2. O filme dos malucos | FJ Design + Audiovisual

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: