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Conceito do trabalho fotográfico

Em seu trabalho mais recente, “A Beleza da Margem, à Margem da Beleza”, o fotógrafo Rafael Lage busca fazer um resgate de sua própria história, ao documentar o cotidiano dos artesãos que expõe na Praça Sete, no centro de Belo Horizonte. Mas, mais do que apreender a multiplicidade de manifestações, práticas e sentimentos desse amplo grupo, o fotógrafo pretende enfatizar a beleza singular, singeleza e força que perpassam essas pessoas.

À margem da beleza, à margem do “establishment”, espalhados pelas capitais ou interiores, sentados nas calçadas, cabelos embaraçados ou dreadlocks, expositores debaixo do braço…, lá estão estes artistas marginais. Um universo cultural singular, rico e complexo, escondido por detrás daquelas figuras enigmáticas ou invisíveis para o transeunte distraído. Seriam os herdeiros do movimento hippie?

Em constante movimento pelo país, vivem como uma família nômade que se reconhece em seus sistemas de valores e por seu trabalho artesanal único. Uma “etnia” na qual não se nasce; se escolhe pertencer a ela…

Tidos como ilegais no Brasil, são perseguidos pela fiscalização dos municípios e pela policia. Quando pegos, tem seu trabalho artesanal e suas ferramentas apreendidas, sendo alvo de uma política clara de higienização social.

Sim, existe vida às margens do capitalismo! E lá estão eles, trabalhando em um tempo orgânico, sem pressa e utilizando outras lógicas às do mercado para dar preço ao seu trabalho. Um constante debochar malicioso sobre o nosso sistema de valores e estruturas de poder.

Fica então a pergunta: como entender este indivíduo, que abre mão da gama de opções oferecidas pela sociedade capitalista e insiste em buscar uma outra maneira de viver além daquelas pré-estabelecidas?

Duramente reprimidos pelo sistema vigente ou tornados fortemente invisíveis, estes, assim como outros outsiders, “estranhos” ou “marginais”, espíritos inquietos e subversivos, tanto incomodam porque põe em cheque a ordem vigente, criam outros referenciais, trazendo à tona a consciência de que as normas e conceitos que nos norteiam também decorrem de escolhas históricas, sociais e culturais e não apenas de fatos dados, à priori. Portanto, são passíveis de serem questionados…

Neste contexto, a arte é realmente perigosa, pois potencialmente capaz de alterar a percepção, deflagrar o espírito crítico, desconstruir conceitos e transformar o ambiente. E mais perigosa que a arte é a liberdade, essa palavra infame que, quando ouvida, nos faz pensar sobre de que lado da cerca estamos.

“E o belo foi tido como belo, eis o feio. E o feio foi tido como feio, eis o belo (…)” (Lao Tse).

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15 Comentários
  1. Simplesmente fantástico esse trabalho!

  2. Gustavo permalink

    Trupiquei no seu blog e me deparei com esse trabalho extremamente interessante. Parabéns pelo que fez e sorte pro que vier.
    Abraço

  3. incelensa permalink

    Tinha um blog no meio do caminho, no meio do caminho havia um blog…Fico feliz que tenham gostado do trabalho, obrigado pelas palavras…

    Rafael

  4. Fala grande!
    Nosso papo na recepção da Rede Minas me inspirou a escrever o texto abaixo. [qualquer identificação é mera coincidência..rs..]
    Detalhe: publiquei no meu blog também.
    Abs..

    “A beleza da margem!

    Marginal. É isso que eu sou!

    Hippie. Descabelado.

    Com minha casa nas costas.

    Hoje estou aqui. Amanhã não sei.

    Já vivi dois anos sem pôr a mão em dinheiro.

    Tudo era na base da troca.

    Trocava estórias por comida e hospedagem.

    Não me considero um vendedor de artesanatos. Sou contador de estórias.

    Meus malabares me acompanham.

    Bêbado não. Equilibrista com certeza.

    E quem não é?

    Quando decidi sair pelo mundo minha família pirou.

    Quando voltei, ela entendeu o que eu buscava.

    Minha forma de viver não é alternativa para todos.

    Pra mim é.

    Ah, encontrei uma mulher que me entende e que, mesmo tendo estudado bem mais que eu, gosta do pé na estrada.

    Estamos sempre atentos á beleza da margem e vivendo à margem da beleza!”

  5. Hugo Henrique permalink

    Obrigado pelo exemplo. Acredito muito na liberdade,
    principalmente de pensamento, ter a mente livre acredito que seja o caminho da felicidade.Tenho muito respeito e confesso até um pouco de inveja de pessoas como vocês.Isso sim é atitude.Na medida do possível tento me libertar das coisas materiais e vejo como isso afeta quem está ao redor,por isso reafirmo minha adimiração às suas convicções.
    Parabéns pelo trabalho e por sua história que eu tive o prazer de presenciar no programa “brasil das gerais”
    Muita paz e tudo de bom.
    Abraço.

  6. Denilson permalink

    Mansões, carrões, aparelhos eletrônicos de última geração… Será que é mesmo disso que precisamos para viver? Não serão mais importante o ar, a água o alimento e a livre manifestação de nossos pensamentos e sentimentos? À margem podemos observar que é possível viver de outra forma e você mostra isso maravilhosamente bem em seu trabalho. Parabéns!

  7. ler todo o blog, muito bom

  8. pajé permalink

    gostaria de saber como anda a esposição, parou, ou esta na estrada.conheso alguns amigos (irmãos de rocha), que gostaram das fotos, mande mais fotos para mim no email meu, ok , obrigado irmão.

    • Rafael permalink

      Irmão, a exposição continua retida, ja saiu a decisão do terceiro recurso que encaminhei, os outros dois foram negados. Ainda não sei a resposta porque a advogada esta de férias. Já levei o caso a um vereador aqui de BH, mas também não deu em nada…Este recurso é o ultimo, daqui em diante só em instâncias superiores. Vou levar até o supremo se for preciso, a estrutura local parece viciada, talvez numa esfera federal as coisas possam se aclarar….Quanto ao trabalho, ele continua, hoje eu dei queixa na corregedoria de policia, porque o comandante da operação de repressão, que tem acontecido quase que diariamente nos ultimos tempos na Praça Sete, me impediu de fotografar, ele e outros 3 policiais me cercaram, ameaçaram e me coagiram a interromper o meu trabalho. Felizmente uma pessoa que observou tudo, é um Pastor evangelico, se ofereceu como testemunha na hora que o policial me disse pra levar minha lei para “a casa do caralho”. Vamos ver no que dá…

  9. É um absurdo o quão “foras das leis” são as pessoas que deviam manter a a lei e a ordem.
    Há umas semanas conversei com um “hippie”, segundo ele seu apelido era Paraibinha. Isso era um sabado de manhã na praça da estação. Ele me contou que a fiscalização havia levado seu “pano” no dia anterior, mais ele não tinha perdido a vontande de continuar a vida!
    No mesmo instante em que ele me contava sobre o ocorrido um Guarda Municipal munido de uma ignorância enorme começou a fazer acusações e a usar pronomes pejorativos com ele! Isso me fez ter uma visão, “de dentro” do problema. É realmente um absurdo que em pleno sec XXI uma raça que adora se declarar filantropica, ainda vire o rosto para problemas como esses!
    Parabens novamente Rafael pelo trabalho!

  10. Tiago permalink

    Cara parabéns pelo seu trabalho e pelo blog que potencializa o trabalho a outras dimensões, registrando e documentando a forma autoritaria earbitrária que a prefeitura encara as relações sociais e os espaços públicos. O prefeito lacerda e sua escória politico partidária dão o tom das medidas inconstituicionais e absurdas. A participação popular é de extrema importancia para restabelecer a ordem democrática dos espaços públicos e da própria concepção de políticas públicas.

    • Rafael permalink

      Com certeza Tiago, hoje afirmo que em BH não existem mais espaços públicos e sim corredores entre espaços privados. Acontece que lenta e gradualmente os moradores da cidade foram abandonando o uso do espaço público, em grande parte isso seu deu por falta de incentivo, falta de investimento e até mesmo por poibições absurdas e anti-constitucionais. Quanto ao prefeito, o que posso falar? Filho bastardo de uma relação promiscua entre PT e PSDB, só poderia dar neste monstro mesmo. Quem votou nele que se responsabilize.

  11. Ethos permalink

    Rafael, eu que sou um tanto cabreiro com relação aos reconhecimentos, que costumo pensar que um reconhecimento social do marginalizado é uma desmarginalização (e que é assim que o buraco pegajoso do establishment faz para capturar o incapturável), pensei com o seu trabalho que tamanha sinceridade de espírito é, invariavelmente, livre de captura.
    Só cuidado.

    E um comentário: você disse “Uma ‘etnia’ na qual não se nasce; se escolhe pertencer a ela…”. – Mas nessas significações que estão sendo criadas não se conclui que a qualquer etnia que se pertença se pertence por escolha, e é isso que devemos perceber, que são escolhas e que inescapavelmente escolhemos, então prestemos atenção no que estamos fazendo?
    Entendo o que você quis dizer, mas entende o que quero dizer?
    De atuar não só pela afirmação, mas pela fraternidade, meu irmão. Não só de a palavra contra a palavra, e no fim a escolha de qual palavra, julgamento das decisões, as consequências e os porquês; mas o que subjuga o desrespeito, que é, amorosamente, o respeito.

    Muito obrigado!
    Um abraço

    • Rafael permalink

      Olá Rodrigues, achei muito bom seu comentário, até porque você levantou o questionamento primordial sobre este trabalho. Afinal, ele deveria existir ou não?

      Eu comecei a fotografar no tempo que viajava de bicicleta, eu queria compartir com outras pessoas as coisas que a estrada me revelava…Mas neste tempo e por muitos anos, eu nunca fotografei um “maluco”(artesão).
      Justo por este motivo que você coloca, somos contra-cultura, a invisibilidade até certo ponto facilita nossa sobrevivência e se não houvesse uma cena de repressão tão forte, eu jamais teria sido autorizado por eles a divulgar nossa cultura, seria melhor que ficássemos como sempre foi.

      É isso, estou totalmente ciente dos riscos que incidem sobre esta abertura e por isso receoso de abrir o material. Por isso que até agora, só foram publicada as denúncias, e isso porque agente não teve muita escolha, esse trabalho tinha de vir a tona pois ele extrapolou a questão do nosso universo, trata de cidadania, da sociedade em que todos vivemos. Agente ainda não começou a contar nossa historia e se abrir este material agora, na minha opinião, as pessoas vão perceber o quanto estão equivocadas sobre a imagem que existe do hippie contemporâneo, podemos desfolclorizar este hippie que a sociedade não compreende. Eu tenho feito um esforço enorme nos últimos meses, viajando entre vários estados pra tentar fazer disso um consenso entre os “malucos”, a imensa maioria apoia a abertura, eles acham que isso pode diminuir a repressão, mas existe uma resistência também, que eu particularmente acho coberta de razão. Eu concordo com ambas visões.

      Creio que você assistiu todos os videos, verá que existe algo muito grave no momento e a chegada da copa irá acentuar essa exclusão, estamos desde já prevenindo um ataque maior que virá.
      Esse é o pensamento que nos guia.

      Agora vou falar particularmente. Eu acho que tem de abrir mesmo, o globo esta se agitando, tem muita gente buscando novos modelos, se revolucionando. E a “malucada” na minha opinião, são bandeirantes dos tempos modernos, que investigam aspectos ligados a novas maneiras de se relacionar economicamente, afetivamente, socialmente. São experiencias fortíssimas, que podem inspirar e favorecer a mudança. Ou pode virar uma modinha, um reavivamento do movimento “hippie” com a cor local do Brasil. Mas se isso acontecer, eu não tenho medo algum. Para ser, não basta parecer.

      Agora, eu vou sempre respeitar a decisão do coletivo, se eles disserem que é pra parar, eu paro.

      A segunda parte do que você falou é que eu não entendi muito bem. Achei até interessante, mas não entendi. Se você puder reformular a sua colocação de uma outra maneira eu agradeceria muito. Fiquei curioso pra entender.

      Abraços…

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